quinta-feira, outubro 18, 2007
Foco

A penumbra cai sobre a cidade. Rostos distorcidos afogam-se na escuridão. O barulho do trânsito cessou e os passos das pessoas não passam de ecos moribundos. Já não se escutam vozes, nem dos cafés nascem arrebatadas gargalhadas. Os candeeiros apagaram-se e até o odor típico da cidade desapareceu. A cidade tombou numa espiral de sombras arrastando com ela tudo o que a povoava. Apenas um foco de luz permanece, algures entre a contemplação do meu olhar e o horizonte do meu sonho. É de uma luminosidade enérgica, porém suave como veludo. Dá-me a calma plena por entre o debruado assustador da sombra. Acima de tudo ilumina-me, como a lua cheia ilumina as aldeias sorvidas pelas trevas. E de tão fulgurante que é aquece, como o crepitar da lenha na lareira traz o Verão ao rigoroso Inverno. Cativa-me, absorve-me, talha-me vozes na alma e certezas no pensamento. Vislumbro-a na sua dança de luz, inebriado pelas mil formas que alcança aquando dos seus movimentos, sempre retornando à sua forma singular, a silhueta incomparável do Amor que tudo alumia.
AAA